A VISITA AO QUILOMBO MONTE ALEGRE EM SÃO LUÍS GONZAGA DO MARANHÃO
Entre os dias 17 e 18 de março deste ano, Claudio Sousa Figueredo, aluno de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Agriculturas Amazônicas (PPGAA) do Instituto Amazônico de Agriculturas Familiares (INEAF), e bolsista do CNPq, realizou um trabalho de campo no território quilombola Monte Alegre, localizado em São Luiz Gonzaga do Maranhão. Ele estava acompanhado de seu co-orientador, Dr. André Luiz, professor do Programa de Pós-Graduação em Estudos Antrópicos na Amazônia (PPGEAA). A atividade também teve a supervisão do professor Dr. José Guilherme Fernandes, orientador do doutorando e coordenador do programa.
A pesquisa teve dois eixos principais de atuação. O primeiro consistiu na coleta de amostras de solo, uma etapa fundamental para a análise laboratorial subsequente que será conduzida na Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), consolidando uma parceria vital para o sucesso do estudo. O segundo foco foi o engajamento com a comunidade, por meio de diálogos, com o intuito de mapear a dinâmica da agricultura familiar, observando o papel dos conhecimentos tradicionais e identificando os desafios vivenciados pelos moradores.
Conforme o doutorando, a coleta de dados é fundamental para sua tese. O estudo visa "analisar a contribuição dos conhecimentos tradicionais da comunidade, por meio do desenvolvimento da agricultura familiar, para a sustentabilidade econômica e ambiental do território".
O professor André Luiz explicou que o projeto se fundamenta nos princípios da Etnoecologia e da Etnopedologia. A Etnoecologia, mais abrangente, busca entender a relação entre os conhecimentos tradicionais e a preservação do meio ambiente, incluindo aspectos como flora, fauna e os aspectos ligados ao solo. Já a Etnopedologia se concentra na relação direta entre o manejo do solo por meio de saberes tradicionais e o meio ambiente. Para o professor, o solo pode oferecer insights valiosos sobre como a comunidade concilia agricultura familiar, economia e conservação ambiental.
Durante a visita, foi observada uma técnica de barreira florestal, chamada de quebra vento, que é uma técnica utilizada para proteger a área de plantio contra ventos fortes, manutenção da umidade do solo, redução de ataques de insetos prejudiciais à plantação, dentre outros. Essa técnica envolve a preservação de árvores ao redor da plantação. Em conversa com o presidente da associação do quilombo, Sr. Cleudivan, que também auxiliou na coleta do solo, foi confirmado que a técnica é usada há muito tempo pela comunidade, contudo sem os conhecimentos acerca de todos os benefícios apresentados.
A comunidade de Monte Alegre apresenta um significativo potencial econômico, embora sua plena realização seja dificultada por diversos fatores. Entre eles, destacam-se a ausência de suporte do poder público municipal, o conflito interno persistente desde 2013 e a carência de apoio técnico.
Historicamente, em termos de potencial econômico e ambiental, é relevante mencionar que, na década de 1980, o quilombo se destacou como um grande produtor de banana, arroz e outros produtos. Contudo, ao longo dos anos, essa produção perdeu força. Atualmente, a economia local concentra-se principalmente na produção de feijão, mandioca, hortaliças, azeite de coco e outros itens em menor escala.
Foto 01. Preparação da área de coleta.

Fonte: Autoria própria
Em um bate papo bem descontraído com a comunidade, foi relatado que a mesma encontra-se em conflito interno desde 2013. O estopim do conflito, segundo o Vice-Presidente, Raimundo Nonato Carneiro Brandão, mais conhecido como Dadinho, se deve por causa de um grupo de moradores que não se identificam como quilombolas, mas sim como assentados do INCRA.
Diante disso, esse grupo de moradores decidiu ocupar uma área maior do que a área ocupada pelos moradores que se identificam como descendentes de quilombolas. Mas a grande questão, conforme afirmação do Senhor Raimundo, é que além de diminuir a área de produção daqueles que se identificam como quilombolas, as atividades praticadas por esse outro grupo não estão ajudando na preservação ambiental da comunidade, pois não adotam as práticas tradicionais.
Foto 02. Conversa com alguns membros da comunidade
Fonte: Autoria própria
O trabalho de campo serviu, também , para reforçar o compromisso da UFPA/INEAF com a comunidade, visto que a mesma já vem sendo frequentada por outros professores da instituição, a exemplo a professora Noemi Sakiara Miyasaka Porro e o professor Flávio Bezerra Bastos, que desenvolvem um projeto na comunidade há bastante tempo.

Outra constatação evidente, ao nos deslocarmos pela comunidade, é a capacidade de sequestro de carbono, que é, na verdade, a captura e armazenamento do dióxido de carbono (CO2) da atmosfera e posterior armazenamento no solo com capacidade de minimizar o efeito estufa.
A comunidade, conforme destacado pelo pesquisador e aluno de doutorado Claudio Figueredo, demonstra um elevado potencial de sequestro de CO2 devido à sua vasta extensão de áreas preservadas, ou seja, florestas. Estima-se que mais da metade dos quase três mil hectares da comunidade seja composta por floresta. Essa proporção é semelhante à do município, onde a área florestal corresponde a 39.878 ha (44%) e a área destinada a agropecuária ocupa 50.398 ha (55%) (MAPBIOMA, 2022).
Considerando que cada hectare de floresta pode preservar, em média, 10 mil toneladas de sequestro de CO2, o processo ocorre da seguinte maneira: as árvores absorvem o CO2 da atmosfera, o que contribui para a melhoria da qualidade do ar, entre outros benefícios. Esse CO2 é transformado em biomassa (presente nas raízes, folhas e troncos) e parte dele é armazenada no solo.


