Seminário reuniu especialistas que apresentaram dados históricos sobre a Guerrilha do Araguaia e os impactos da ditadura militar na região
No dia 14 de abril de 2026, terça-feira, a equipe de estudantes do INEAF e NAEA coordenada pelo professor Frederico Brandão participou de uma atividade acadêmica no campus da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), voltada à discussão da memória, da resistência e da repressão no sudeste paraense, com foco na Guerrilha do Araguaia e nos desdobramentos da ditadura militar brasileira. A mesa foi composta pelos pesquisadores Naurinete Fernandes Inácio Reis e Janailson Macêdo Luiz, além do estudante Paulo Fonteles Filho que compartilhou relatos sobre sua trajetória familiar. Durante a atividade, foram apresentadas análises sobre os processos de apagamento histórico, violência institucional e as práticas de repressão direcionadas não apenas aos militantes guerrilheiros, mas também às populações indígenas e camponesas. Um dos destaques do seminário foi a exposição do professor Janailson Macêdo sobre a trajetória de Gabriel Pimenta, advogado mineiro que atuou no Pará durante o período de redemocratização. Reconhecido por sua atuação junto à Comissão Pastoral da Terra (CPT), Pimenta teve papel relevante na organização sindical e na defesa jurídica de trabalhadores rurais em conflitos fundiários. Seu assassinato, em 1982, foi apontado como um caso emblemático de violência política, posteriormente reconhecido em decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos, em 2022, que responsabilizou o Estado brasileiro.
As discussões também abordaram a Guerrilha do Araguaia e a atuação das forças militares na região. Segundo os participantes, a repressão não se limitou aos integrantes da guerrilha, alcançando de forma sistemática comunidades camponesas, sob a suspeita de apoio aos insurgentes. Nesse contexto, a chamada “Casa Azul”, localizada em Marabá, foi mencionada como um dos principais símbolos da repressão. Operada pelo Centro de Informações do Exército (CIE), a estrutura funcionou como base estratégica para o combate à Guerrilha do Araguaia e para a ocultação de práticas repressivas, tendo funcionado como centro clandestino de detenção e tortura entre 1972 e 1974. Durante o seminário foi destacado ainda a importância da atuação da mídia independente e da transformação de espaços marcados pela violência em locais de memória e reflexão. O desaparecimento forçado foi caracterizado como um crime continuado, cujos efeitos persistem na estrutura democrática do país. A análise apresentada ao longo do encontro ressaltou que as estruturas de repressão implementadas na década de 1970 deixaram um legado duradouro, influenciando conflitos agrários posteriores e contribuindo para a militarização das questões fundiárias.
Foram citados episódios como a chamada “Guerra dos Perdidos” (1976) e ações de monitoramento de movimentos sociais que se estenderam até os anos 2000. Também foi enfatizada a compreensão jurídica do desaparecimento forçado como crime permanente, conforme decisões internacionais, enquanto não houver esclarecimento sobre as circunstâncias das mortes e localização dos corpos das vítimas. Os debates apontaram para a necessidade de medidas institucionais voltadas à preservação da memória histórica. Entre as propostas destacadas estão o tombamento da Casa Azul e sua transformação em espaço de memória, a revisão de homenagens públicas a agentes ligados à repressão e o fortalecimento de parcerias entre universidades e movimentos sociais para registro de memórias orais. A programação foi encerrada com visita à Curva do S, local simbólico do massacre de Eldorado dos Carajás, onde integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) organizavam atividades em memória das vítimas. O grupo de estudantes seguiu posteriormente para Eldorado dos Carajás, onde realizou pernoite. A atividade reforça o papel das instituições de ensino na promoção do debate crítico e na preservação da memória histórica, especialmente em regiões marcadas por conflitos sociais e violações de direitos humanos.

Autoria: Rafael Valente e Wilson Sampaio